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Saúde

Otite em cães e gatos: sinais, causas e tratamento

Cão de orelhas caídas deitado em ambiente doméstico, ilustrando cuidados com a saúde dos ouvidos

Poucos problemas de saúde do pet são tão frequentes e, ao mesmo tempo, tão mal cuidados em casa quanto a otite. O cão começa a sacudir a cabeça, a coçar a orelha com a pata, e logo aparece aquele cheiro forte e a secreção escura. Muitos tutores reagem comprando uma solução qualquer na pet shop ou pingando produtos caseiros, e é justamente aí que a história costuma se complicar. A otite parece simples, mas é uma inflamação que quase nunca tem uma causa única, e tratar só o sintoma, sem entender o que está por trás, costuma levar a recaídas sem fim. Este guia reúne o que a medicina veterinária recomenda hoje sobre como reconhecer uma otite, quais são as causas mais comuns e por que o tratamento certo passa, sempre, pelo veterinário. Conteúdo atualizado em junho de 2026, com base nas diretrizes veterinárias atuais.

Resposta rápida: a otite é a inflamação do conduto auditivo, o canal que leva do exterior da orelha até o tímpano. Ela é muito comum em cães e também ocorre em gatos, e os sinais clássicos são coceira intensa na orelha, sacudir e inclinar a cabeça, mau cheiro, vermelhidão e secreção escura ou amarelada. O ponto central é que a otite quase sempre tem uma causa por trás, como alergia, ácaros (sobretudo em gatos), excesso de umidade, pelos no canal ou um corpo estranho. Por isso o tratamento não se resume a um produto: o veterinário precisa examinar o ouvido, identificar a causa e escolher a medicação correta. Remédio caseiro e cotonete no fundo do canal são erros que podem piorar o quadro.

O que é otite e por que ela acontece

A otite é, por definição, a inflamação do canal auditivo. Para entender por que ela é tão comum em cães, vale conhecer um detalhe da anatomia. O conduto auditivo do cão e do gato não é reto como o nosso: ele tem um formato em "L", com uma parte vertical e outra horizontal antes de chegar ao tímpano. Esse formato dificulta a saída natural da cera, da umidade e dos detritos, criando um ambiente quente, úmido e fechado, perfeito para a multiplicação de microrganismos.

O tipo mais comum é a otite externa, que afeta a porção do canal antes do tímpano. Quando não tratada de forma adequada, a inflamação pode avançar e atingir o ouvido médio, originando a otite média, um quadro mais sério e mais difícil de resolver. Segundo o Merck Veterinary Manual, a otite externa é um dos motivos mais frequentes de consulta veterinária em cães, e parte significativa desses animais apresenta também envolvimento do ouvido médio quando o problema se torna crônico. É justamente por isso que tratar a otite cedo e corretamente faz tanta diferença.

O erro conceitual mais comum dos tutores é enxergar a otite como uma "infecção isolada", como se bactérias ou fungos tivessem simplesmente aparecido do nada. Na prática, a medicina veterinária trabalha com a ideia de que a otite tem uma causa primária, que dá início ao problema, e fatores que a perpetuam, como as bactérias e os fungos que se aproveitam do ambiente inflamado. Tratar só os microrganismos, sem resolver a causa primária, é como enxugar o chão com a torneira aberta.

Os sinais de otite: o que observar no seu pet

Reconhecer a otite cedo é o que evita que ela vire um problema crônico. Os sinais costumam ser bem perceptíveis, e o tutor atento percebe que algo mudou no comportamento do animal. Vale conhecer os mais característicos:

SinalComo costuma se manifestar
Coceira na orelhaO animal coça a orelha com a pata de forma insistente e esfrega a cabeça em móveis e no chão
Sacudir a cabeçaMovimentos repetidos de chacoalhar a cabeça, às vezes acompanhados de inclinação para um lado
Mau cheiroOdor forte e desagradável saindo do ouvido, um dos sinais mais típicos
SecreçãoAcúmulo de cera escura, secreção amarelada ou aspecto purulento dentro do canal
Vermelhidão e calorParte interna da orelha avermelhada, inchada e quente ao toque
DorReação de queixa ou afastamento quando o tutor toca ou tenta limpar a orelha

Em gatos, os sinais podem ser mais discretos, mas a coceira e o sacudir da cabeça também aparecem. A International Cat Care destaca que, nos felinos, uma das causas mais comuns de otite é o ácaro de ouvido, que provoca uma secreção escura, seca e bastante característica, parecida com borra de café. Filhotes e gatos jovens são especialmente suscetíveis a esse parasita.

Um sinal de alerta que merece atenção imediata é a inclinação persistente da cabeça para um lado, perda de equilíbrio ou andar em círculos. Isso pode indicar que a inflamação atingiu estruturas mais profundas do ouvido, ligadas ao equilíbrio, e exige avaliação veterinária urgente. Diante de qualquer um desses sinais mais graves, não se deve esperar nem tentar tratar em casa.

As causas mais comuns: por que a otite volta sempre

Aqui está o ponto que mais confunde os tutores e que explica por que tantas otites se tornam um ciclo de melhora e recaída. A otite raramente é o problema em si: na maioria das vezes, ela é a consequência visível de outra coisa. Identificar a causa primária é o trabalho mais importante do veterinário, e é o que diferencia um tratamento que resolve de um que apenas adia o próximo episódio.

Entre as causas e fatores que favorecem a otite, os mais frequentes são:

  • Alergias. Esta é, de longe, a causa primária mais comum de otite recorrente em cães. Animais com dermatite alérgica, seja por alimento ou por substâncias do ambiente, costumam ter as orelhas inflamadas como parte do quadro de pele. Nesses casos, a otite só se resolve de verdade quando a alergia é controlada.
  • Parasitas. O ácaro Otodectes cynotis, o famoso ácaro de ouvido, é uma causa importante, sobretudo em gatos e filhotes. Ele é contagioso entre animais e provoca coceira intensa e aquela secreção escura típica.
  • Umidade. Água que entra durante o banho ou em brincadeiras na piscina, quando não é seca corretamente, cria o ambiente úmido que favorece a multiplicação de microrganismos. Cães de orelha caída, como Cocker e Basset, são mais propensos por terem o canal mais abafado.
  • Corpo estranho. Sementes de capim, pequenas plantas e detritos que entram no canal durante passeios podem desencadear uma otite súbita e bastante dolorosa, geralmente em uma orelha só.
  • Excesso de pelos ou de cera. Algumas raças têm muitos pelos dentro do canal, o que dificulta a ventilação e o autolimpeza natural do ouvido.

Repare como muitas dessas causas se conectam com outros cuidados de saúde do animal. O controle de parasitas externos, por exemplo, anda junto com a proteção contra pulgas e carrapatos, e as alergias alimentares fazem parte de um conjunto maior de decisões sobre a dieta, como discutimos em como escolher a ração do cachorro. A otite, vista assim, é menos um problema isolado e mais um sinal de que algo no equilíbrio do animal merece atenção.

Por que tratar a otite em casa é um risco

Esta é, talvez, a parte mais importante deste guia, porque é onde mais tutores erram. A tentação de resolver a otite por conta própria é enorme: o problema parece simples, há produtos vendidos sem receita e a internet está cheia de receitas caseiras com vinagre, óleos e outras misturas. O problema é que cada uma dessas atitudes pode transformar uma otite tratável em um quadro crônico e doloroso.

O primeiro risco é mecânico. Usar cotonete para limpar o fundo do ouvido, como muita gente faz, empurra a cera e a secreção para dentro, em direção ao tímpano, em vez de remover. Isso pode compactar o material e até lesionar estruturas delicadas. A limpeza correta, quando indicada, é feita com produtos específicos e técnica adequada, ensinada pelo veterinário.

O segundo risco, mais grave, está no tímpano. Se a otite já comprometeu o tímpano, pingar certos produtos no ouvido pode levar a substância ao ouvido médio e causar danos sérios, incluindo problemas de audição e de equilíbrio. O American Kennel Club alerta que produtos e remédios humanos jamais devem ser aplicados no ouvido do cão sem orientação, justamente por esse motivo. O veterinário precisa verificar se o tímpano está íntegro antes de escolher a medicação, e isso não há como fazer em casa.

O terceiro risco é o tratamento incompleto. Mesmo que um produto qualquer melhore os sintomas por alguns dias, se a causa primária não for identificada, a otite volta, e cada recaída deixa o canal mais espesso e mais difícil de tratar. Otites crônicas mal conduzidas chegam, em casos extremos, a exigir cirurgia. Levar o animal ao veterinário no primeiro episódio é, no fim das contas, o caminho mais rápido e mais barato.

Como é feito o diagnóstico e o tratamento

O diagnóstico de otite é responsabilidade do médico-veterinário e segue uma lógica que vai muito além de olhar a orelha por fora. O profissional usa um otoscópio para examinar o canal por dentro e avaliar a condição do tímpano, observa o tipo e a cor da secreção e, em muitos casos, coleta uma amostra para examinar ao microscópio. Esse exame, chamado de citologia, mostra se o problema é causado por bactérias, por fungos como a Malassezia ou por ácaros, e essa informação muda completamente o tratamento.

O tratamento, então, costuma ter duas frentes que caminham juntas. A primeira é tratar a inflamação e os microrganismos do episódio atual, geralmente com medicação tópica aplicada no ouvido, às vezes associada a anti-inflamatórios e, em quadros mais sérios, a medicação por via oral. A escolha do produto depende do que a citologia revelou, e é por isso que não existe um remédio único de otite que sirva para todos os casos. A segunda frente, e a mais decisiva a longo prazo, é investigar e tratar a causa primária, seja ela uma alergia, um parasita ou um problema anatômico.

O acompanhamento também é parte do tratamento. O veterinário costuma pedir o retorno do animal para confirmar que a infecção foi realmente resolvida, e não apenas mascarada. Interromper a medicação assim que os sinais melhoram é um erro comum que favorece a recaída. Seguir o tempo e a frequência de aplicação exatamente como orientado, mesmo que o animal já pareça bem, faz parte do que garante a cura.

Vale lembrar que a saúde dos ouvidos entra no mesmo conjunto de cuidados de rotina que protege o animal ao longo da vida. A vacinação em dia, o controle de parasitas e as decisões sobre castração e seus cuidados compõem, junto com a checagem periódica das orelhas, a base de saúde do pet. Em cães mais velhos, a atenção precisa ser ainda maior, como reforçamos no guia sobre cuidados com o cão idoso, já que problemas crônicos tendem a se acumular com a idade.

Como prevenir a otite no dia a dia

A boa notícia é que boa parte das otites pode ser prevenida com cuidados simples e constantes. A lógica é direta: como a otite se aproveita de umidade, sujeira e causas primárias mal controladas, tudo o que mantém o canal seco, limpo e equilibrado reduz o risco.

A primeira medida é a secagem correta após o banho e os mergulhos. A água que entra no ouvido deve ser removida com cuidado, usando algodão na parte externa e visível do canal, sem nunca empurrar nada para dentro. Cães que nadam ou tomam banho com frequência, e especialmente os de orelha caída, merecem atenção redobrada nesse ponto.

A segunda medida é a observação periódica. Habituar-se a olhar as orelhas do animal uma vez por semana, verificando se há vermelhidão, cheiro diferente, excesso de cera ou secreção, permite pegar uma otite no começo, quando o tratamento é mais simples. A limpeza de manutenção, quando recomendada pelo veterinário, deve ser feita com produto auricular próprio e na técnica correta, jamais com cotonete ou produtos improvisados.

A terceira medida, e a mais decisiva nos casos recorrentes, é controlar a causa primária. Um cão com otites de repetição quase sempre tem uma alergia por trás, e enquanto essa alergia não for diagnosticada e manejada, as otites vão continuar voltando. Conversar com o veterinário sobre a investigação alérgica, sobre a dieta e sobre o ambiente do animal é o que transforma um ciclo de recaídas em um problema realmente resolvido. Prevenir otite, no fundo, é cuidar da saúde geral do pet, e não apenas da orelha.

Perguntas frequentes

Como sei se meu cachorro está com otite?

Os sinais mais típicos são coceira insistente na orelha, sacudir e inclinar a cabeça, mau cheiro saindo do ouvido, vermelhidão na parte interna da orelha e acúmulo de secreção escura ou amarelada. O animal também pode demonstrar dor ao toque e esfregar a cabeça no chão e nos móveis. Se você notar inclinação persistente da cabeça, perda de equilíbrio ou andar em círculos, procure o veterinário com urgência, porque isso pode indicar que a inflamação atingiu estruturas mais profundas do ouvido.

Posso limpar o ouvido do meu pet com cotonete?

Não. O cotonete empurra a cera e a secreção para o fundo do canal, em direção ao tímpano, em vez de remover, e pode compactar o material ou lesionar estruturas delicadas. A limpeza externa deve ser feita apenas com algodão na parte visível da orelha, e a limpeza interna, quando indicada, é feita com produto auricular específico e na técnica que o veterinário ensina. Em caso de dúvida, deixe a limpeza profunda para o profissional.

Otite tem cura ou volta sempre?

A otite tem cura, mas ela só se resolve de verdade quando a causa primária é identificada e tratada. A maioria dos casos recorrentes acontece porque o tutor trata apenas o sintoma, com algum produto, sem descobrir o que está por trás, que costuma ser uma alergia, um parasita ou um problema anatômico. Quando o veterinário investiga e controla essa causa, e o tratamento é seguido até o fim, a otite deixa de voltar. Quadros crônicos mal conduzidos é que tendem a se repetir.

Gato também tem otite?

Sim. Embora seja mais comum em cães, o gato também pode desenvolver otite, e uma das causas mais frequentes nos felinos é o ácaro de ouvido (Otodectes), que provoca coceira intensa e uma secreção escura e seca parecida com borra de café. Esse parasita é contagioso entre animais e atinge sobretudo filhotes e gatos jovens. Como os sinais no gato costumam ser mais discretos, qualquer coceira insistente na orelha ou sacudir de cabeça merece avaliação veterinária.

Remédio caseiro resolve otite?

Não, e pode piorar. Receitas com vinagre, óleos ou produtos humanos podem irritar ainda mais o canal inflamado e, se o tímpano estiver comprometido, levar substâncias ao ouvido médio e causar danos sérios à audição e ao equilíbrio. Além disso, sem saber se a causa é bactéria, fungo ou ácaro, é impossível acertar o tratamento. O caminho seguro é levar o animal ao veterinário, que examina o ouvido, identifica a causa e prescreve a medicação correta.

Fontes